Eu queria dançar. Estava adorando e me sentindo importante.
Alguém me falou então, que tudo isso seria assim só enquanto a atração principal se preparava no camarim para entrar no palco.
Sim. Teríamos música ao vivo e ninguém havia me contado. Pensei que ficaria ali dançando e dançando alucinadamente a noite toda hits de discoteca.
Mas não.
Havia instrumentos musicais e uma bateria enorme no palco. Seria um show. Um show de WALESKA! A Rainha da Fossa. Fiquei nervoso, com raiva, aflito e apavorado. Eu queria dançar! Além do mais, não sabia o que era fossa. - Peraí - perguntei - Fossa não é aquele buraco onde as pessoas fazem as suas necessidades? Por que esta mulher quer ser rainha disso???!!!
Não, eu não sabia o que era fossa. Mas sabia muito bem quem era aquela Waleska. Sabia porque a mãe da Silvana, minha colega de colégio tinha um disco dessa Waleska.
Às vezes eu ia na casa da Silvana estudar, e a mãe dela ouvia aquele disco sempre com as luzes apagadas e ninguém podia incomodá-la. Só a capa do disco já me dava arrepios. Eu nem encostava a mão. Tinha um rasgão comprido em uma das beiradas. Um rasgão horrível. Como uma cicatriz.
A casa onde elas moravam, mãe e filha, ficava numa rua praticamente deserta, com chão de terra batida rubro-sangue. Era uma sensação desconfortável caminhar por ali ao anoitecer. Ouvia-se o uivo frio do vento, e a voz de Waleska que com ele dialogava emitida pela radiovitrola, canto que ecoava pelos muros, barrancos e arbustos, cujas sombras bruxuleavam sob a luz do luar.
A mãe de Silvana era uma mulher muito esquisita. Se a Silvana a incomodasse naquele momento, ela batia na Silvana. Batia. Dava um tapa. PÁ! E a Silvana saía correndo chorando. Corria feito uma saracura, com aquelas pernas magrinhas magrinhas. Tadinha da Silvana. Eu ficava com pena dela.
Comentava-se que a mãe da Silvana era assim porque ouvia o dia inteiro aquele disco. O disco daquela Waleska. Diziam que Waleska cantava músicas muito tristes, letras melancólicas as quais minha pouca vivência no planeta Terra ainda não me permitiria compreender, sentimentos obscuros do mundo dos que tomam uísque com "uma guaraná". E para piorar, que a mãe da Silvana era amiga dela. Amiga... daquela Waleska.... Mas eu acho que era mentira.
Penso que inventavam isso para botar medo na gente.
E funcionava.
Sim. Eu confesso. Eu tinha medo de Waleska.
Meia-noite, a música mecânica parou. Neste momento, enquanto eu estava imerso em pensamentos reflexivos, uma tempestade que já vinha se anunciando desde o início da noite resolveu inundar o éter. Trovões estrondosos, relâmpagos e raios mortíferos cruzavam os céus. O sistema de iluminação da cidade entrou em curto, as luzes do Aero-Clube se apagaram. E eu ali... -"Waleska...", pensava..."Waleska".... ”Waleska está aqui. Bem aqui... comigo... nesta escuridão...”. Olhava aturdido para todos os lugares achando que sob meus pés se abriria uma fossa, e que a mão gelada e gosmenta de Waleska surgiria das entranhas da Terra e agarraria meus pés para me puxar eternamente para as profundezas. Tudo escuro.
Súbito, um relâmpago enorme iluminou com seu clarão o palco, e eu a vi!
Sentada na bateria, com um enorme vestido longo negro, o cabelo platinado desgrenhado, com um copo de uísque na mão e soltando densa fumaça pela boca: Waleska! Linda e medonha...
Fiquei ali, com os olhos vidrados durante infinitos minutos, esperando que cada relâmpago denunciasse aquela silhueta diversas vezes, até que de repente, ela não estava mais lá.
Foi-se, deixando no ar apenas a bruma da fumaça de seu cigarro. Como uma visão, um fantasma.
A tempestade não parou.
E a luz também não voltou.
Waleska não cantou.
E eu voltei prá casa.... assim...em transe...
foi assim mesmo.... eu acho....
Hoje em dia tenho um disco de Waleska.
Gosto.
Ainda para mim é estranho.
Ainda tenho medo de Waleska.
Mas eu gosto.
Gosto também de uísque.
Mas puro.
Sem "a guaraná. "
4 comentários:
Oba!
O Alfarrábio voltou!!!!!!!!!!!!
Amei esse texto
Adorei esse texto
adorei esse texto
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