quarta-feira, dezembro 09, 2009

Uma noite no Inferno

Uma noite dessas aí, sonhei que fui ao inferno.
Não sei bem o motivo. Mas fui por minha própria vontade.
No meu sonho, era domingo. O céu estava cinza, repletos de nuvens-chumbo.
Era de tarde, acho que umas 3 horas.
Então resolvi descer.
Desci.
Até porque do lado de cima, o silêncio era insuportável, e o asfalto por demais frágil para suportar meu peso.
Por pura precaução, a fim de evitar a surpresa de que o chão me engolisse de uma forma ou de outra, resolvi descer.
Ademais, sempre foi do meu conhecimento que Deus costuma descansar aos domingos. Afinal de contas, se é que Ele dorme enquanto descansa, imagino que a intensidade de Seu sono deva ser proporcional à grandeza de Sua glória. Algo mais ou menos parecido com estado de coma. Sendo assim, aproveitei a oportunidade e desci, certo de que o Altíssimo, durante Seu sagrado sono nem tomaria conhecimento desta minha pequena transgressão.
Passei então por uma roleta vermelha, dessas barulhentas que se usam em cinemas e deparei-me com uma escada; cenário que me confirmou a antiga teoria que diz que “o inferno realmente é mais embaixo”.
O tão famoso Inferno resumia-se a uma pequena sala escura repleta de velhas cadeiras de veludo vermelho e mofado.
Bosta.
Era um cinema, muito do vagabundo.
Sentei-me.
Permaneci no meu lugar quieto e imóvel, tentando causar a impressão que já estava habituadíssimo à situação. Sentou-se também ao meu lado, um senhor com bigodes fartos segurando uma sacola de papel de supermercado. Achei estranho quando ele levou a sacola à boca e começou a seguinte rotina:
-ffffffff..... fffffff.......fffff...... POW!
-Droga - pensei eu. Que susto. O velho encheu a sacola de ar e depois estourou com as mãos feito criança inconveniente. Tudo bem. Fingi que não percebi.
-ffffffff........fffff...... POW!
-Pôrra! De novo! - já disse eu em voz baixa para ver se o velho se tocava que estava incomodando.
-ffffffff..... fffffff.......fffff...... POW!
De novo.
E aquilo foi se repetindo como tortura chinesa.
E ninguém reclamava.
Parecia que só eu estava incomodado.
Eu tentava me levantar e ir embora. Mas era difícil me locomover.
Parecia que eu pesava uns cem quilos a mais.
Foi quando percebi que todos lá dentro tinham a mesma dificuldade. Algo como um documentário de ONG neohippie-ecológica sobre a vida dos babuínos, só que em câmera lenta...
-ffffffff..... fffffff.......fffff...... POW!
-AH Cabrunco de velho desgramado filho da puta! - pensava eu enquanto tentava achar uma saída.
Mas... como diabos se sai do inferno?
Então fiquei desesperado e acordei.
Ainda assustado e com um pouquinho de taquicardia pensei....
Que bobo eu sou...
Que burro sou eu....
Acho que era para cima.
É claro, tinha que ser para cima!
-ffffffff..... fffffff.......fffff...... POW!

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