Quando eu era adolescente, me lembro que nunca gostei de pedir dinheiro para os meus pais a fim de fazer minhas coisas. Não gostava. Me incomodava. Achava ridículo. Eu sempre arrumava algum trampo para descolar algum. Vendia camiseta, limonada gelada, desenhava, inventava um monte de coisas, já fabriquei até chupetinha de açucar queimado e fraldas artesanais, o que dá uma outra história......
Enfim, pedia dinheiro só quando não tinha jeito mesmo, mas mesmo assim dizia com a boca cheia de orgulho que iria pagar depois. E nas raríssimas vezes que dava, eu pagava mesmo. Eles não aceitavam, é claro, mas eu insistia. Doido para não aceitarem mesmo.
Lembro-me de uma vez que arrumei um trabalho numa livraria. Isso deve ter sido em 81, 82, por aí....trabalhei lá uns 3 anos como livreiro. Eu tinha uns 17, 18 anos, não sou muito bom para datas. Adorei aquilo. Livro! Livros! Livros! Rodeado por livros! E o melhor: não tinha fregueses o dia inteiro, e eu lia muito. Lia de tudo. Até aquelas coisas doidas de Tratado de Pedra Filosofal e o Kct a 4.
Atender a um freguês é uma arte. É muito difícil. Você tem que ser uma espécie de terapeuta.
Certa vez, uma moça de língua presa chegou lá pedindo um livro. Juro, não foi culpa minha. A moça falou tão embolado, que eu entendi "Memórias de uma Rata Grande". Aconselhei que ela procurasse na sessão de livros infantis. Ela ficou meio boba, olhando para minha cara, e eu garanti que ela acharia lá. Quando ela falou, cheguei até a visualizar a capa do livro: Aquela rata, com cara de Dona Benta, com seu vestidinho quadriculado, cheia de ratinhos em volta.
Ela, coitada, mesmo achando esquisito, foi procurar. Como não achou, aí eu entrei em cena gritando para o outro vendedor
- Ô Silva, não tinha aí "Memórias de uma Rata Grande? Eu tenho certeza que tinha!
E o Silva, bom vendedor esperto e profissional que era, replicou:
- "Tiiiiiinha! Tinha sim! Eu me lembro deste livro! Mas acho que acabou.. Peraí que vou ver lá no estoque! Mas se não tiver, não tem problema! Eu ligo prá editora e amanhã de tarde já está aqui!".
A moça parou capisbaixa e esfregando as mãos... nervosa. Aos poucos foi levantando a fronte, respirou fundo e disse de uma maneira Zen - ".MEMÓOOOOORIAS.....MAHATMA!" "MAHATMAAAAA! "GANDHI"... "MEMÓRIAS DE UM MAHATMA GANDHI!"
Entrei em pânico! Acordei e disse num sobressalto
- Ó! Ué! ÓOOOOOOOOOO! Mahatma! É claro! Ai moça, ai, eu tava brincando, desculpe, ai moça! que vergonha! Aqui ó! Aqui! Tá aqui! Na mão! É prá senhora mesmo ou quer que embrulhe para presente?
Um comentário:
déjà, um clássico! passei para deixar um beijo.
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