Ele era bem moreno, quase mulato.
Baixo, magro, ombros estreitos, porém barrigudo.
Caminhava elegantemente desengonçado, como se fosse fruto do amor carnal entre Chaplin chamuscado com um chuchu fincado em dois palitos de picolé. Parecia um personagem de desenho animado.
Até hoje não entendi se quem o convidou para ser meu padrinho foi minha mãe ou meu pai. Nem sei se um dia houve um convite. Quando eu perguntava, sempre fugiam do assunto. Acho que nem eles mesmos se lembravam. Talvez porque fosse vizinho há muito, bonzinho, idoso. O certo é que de alguma forma, ele se tornou meu padrinho. E assim, acabamos nos acostumando com esta idéia. Sebastião era o seu nome. Casado com a bondosa Carmem.
Recordo-me que o melhor presente de aniversário que jamais ganhei, foi ele quem deu. Acho que eu tinha então uns bem vividos sete anos de idade. Ou talvez oito. Uma lanterna.
Recordo-me que o melhor presente de aniversário que jamais ganhei, foi ele quem deu. Acho que eu tinha então uns bem vividos sete anos de idade. Ou talvez oito. Uma lanterna.
Minha cama estava cheia de presentes, jogos, roupas, discos, livros. E no meio de todos aqueles troféus, uma lanterna. Mesmo sendo muito criança, eu percebia que os pais dos meus amigos secretamente lançavam olhares zombeteiros sobre o presente. Mas o que eles nem imaginavam, é que uma lanterna daquelas, era tudo que uma criança da minha idade avançada haveria de mais desejar nesse mundo. Era ainda mais bonita do que a do meu pai, que nunca me emprestava a sua com medo que eu a escangalhasse. Uma lanterna. Lanterna azul e comprida para sair correndo desarvorado feito louco pelas ruas de perigosos paralelepípedos irregulares enquanto a noite caía escura até que a lua reinasse inteira, macia, lisa e redonda. Lanterna para iluminar os cantinhos do pique-esconde, polícia e ladrão, e mais outras brincadeiras mais incomuns, brincadeiras que só as crianças que possuíam lanternas como aquelas saberiam inventar.
Pois bem. Numa bela manhã de tanajuras ensolaradas, eu e meus primos brincávamos no jardim. Eu tinha muitos primos, quase todos da mesma idade. Sebastião foi se aproximando da casa com seu tradicional costume preto: terno, chapéu e guarda-chuva. Guarda chuva este que ele também chamava de “chapéu”. Qualquer tempo ou estação fosse, ele sempre estava assim vestido. O chapéu e o guarda-chuva eram os acessórios mais importantes. Segundo Sebastião, o protegiam da chuva ou sol forte.
Nesta manhã, o sol brilhava mais alegre e cruel do que nunca.
Diariamente ele saía, passava na casa dos meus avós, papeava, comia bolo, tomava café. Depois ia caminhando até à praça no centro da cidade fazer não imagino o quê e retornava com o mesmo passinho esquisito e vagaroso no fim da tarde.
-Ô de casa! – gritou ele batendo palmas ao mesmo tempo e já entrando. Depositou o chapéu e o guarda-chuvas na cadeira da varanda e correu para a cozinha, como de hábito. E nos finais de semana, a visita era mais legal, pois a vovó sempre fazia rocambole de goiabada pela manhã.
Eu e meus primos continuamos brincando ruidosamente.
Diariamente ele saía, passava na casa dos meus avós, papeava, comia bolo, tomava café. Depois ia caminhando até à praça no centro da cidade fazer não imagino o quê e retornava com o mesmo passinho esquisito e vagaroso no fim da tarde.
-Ô de casa! – gritou ele batendo palmas ao mesmo tempo e já entrando. Depositou o chapéu e o guarda-chuvas na cadeira da varanda e correu para a cozinha, como de hábito. E nos finais de semana, a visita era mais legal, pois a vovó sempre fazia rocambole de goiabada pela manhã.
Eu e meus primos continuamos brincando ruidosamente.
Até que de repente, num encontrar maléfico de olhares infantis fez-se um silêncio estrondoso. A natureza ficou muda. As nuvens pesadas como chumbo. Parece até que o tempo parou diante daquela visão. - Nossa! O chapéu do Seu Sebastião! Ali, sozinho na cadeira, dando sopa!
Sempre morremos de vontade de um dia botar as mãozinhas sujas de terra e grama naquele chapéu! Pé ante pé, como se fora tudo combinado, fomos avançando feito famintos e selvagens macacos-prego nos esgueirando pelos muros e paredes em direção ao chapéu. Ao chegarmos bem perto, o bote! Agarramos o chapéu, ai que nervoso! Corremos com ele para o jardim! Um êxtase inexplicável se apossou de nós! Ai Meu Deus! Meu Deus! O chapéu era pesado! Gelado! Que gozo! Estávamos possuídos. Me dá! Me dá! Agora sou eu! Agarramos, amassamos, botamos nas cabeças! Jogamos para o alto, brincamos de disco voador, rolávamos de prazer sem fôlego e vermelhos de explosivas gargalhadas de prazer!
Até que enjoamos.
Criança é assim mesmo. Enjoa rápido das coisas. Então, não sei bem o motivo, decidimos esconder o chapéu no armário debaixo da escada antes que seu dono voltasse. E assim que isso foi providenciado, fomos para outros cantos e demos o caso por encerrado.
Passamos mais uma boa parte da manhã brincando pelas ruas vizinhas. Até nos esquecemos do chapéu.
Passamos mais uma boa parte da manhã brincando pelas ruas vizinhas. Até nos esquecemos do chapéu.
Quando voltamos, pois a fome já reclamava, já de longe avistamos a cena medonha. Uma reunião na frente da casa. Nossos pais também haviam sido convocados. Cacete! Fudeu! Observou um dos meus primos. Olha láaaaaa! E fomos nos aproximando com caras de lambisgóios sonsos, tentando agir com naturalidade, como se nada tivesse acontecendo.
O Sebastião dava pulinhos, gesticulava nervoso feito o Patolino do desenho animado e gritava com minha avó:
- Ô Maria! Até quando isso Maria? Até quando? Eu não agüento mais isso Maria!.
-Calma Sebastião” – dizia minha avó - calma......
Minha mãe, menos paciente se aproximou de nós e ordenou entre os dentes:
-Calma Sebastião” – dizia minha avó - calma......
Minha mãe, menos paciente se aproximou de nós e ordenou entre os dentes:
- Devolvam agora!.
-Ih mãe! Num fui eu não!
-Não quero saber quem foi! (ameaçando a pegar o chinelo) De-vol-vam A-go-ra!
Os tios foram se aproximando
-Ih mãe! Num fui eu não!
-Não quero saber quem foi! (ameaçando a pegar o chinelo) De-vol-vam A-go-ra!
Os tios foram se aproximando
– Ou devolvem agora ou vai todo mundo ficar trancado em casa de castigo o final de semana inteiro.
Já sentindo antecipadamente o estalo das palmadas de sandália havaiana na bunda, entramos capisbaixos na casa, tiramos o chapéu do esconderijo e o devolvemos ao dono.
- Agora peçam desculpas ao Sr. Sebastião.
- Desculpa Seu Sebastião! – soou aquele coro desafinado de vozes infantis em uníssono.
Sebastião respondeu, mas não com palavras. Lançou um olhar rubro de ódio. Primeiro para nossos pais por longo tempo. Depois um mais rápido e tímido para nós. Foi como se estivesse lançando uma maldição muito peçonhenta. Fiquei com medo.
Colocou o chapéu na cabeça ovalada, abriu o guarda chuva que também era chapéu e começou vagarosamente a caminhar em direção ao destino, fosse lá qual fosse.
Já sentindo antecipadamente o estalo das palmadas de sandália havaiana na bunda, entramos capisbaixos na casa, tiramos o chapéu do esconderijo e o devolvemos ao dono.
- Agora peçam desculpas ao Sr. Sebastião.
- Desculpa Seu Sebastião! – soou aquele coro desafinado de vozes infantis em uníssono.
Sebastião respondeu, mas não com palavras. Lançou um olhar rubro de ódio. Primeiro para nossos pais por longo tempo. Depois um mais rápido e tímido para nós. Foi como se estivesse lançando uma maldição muito peçonhenta. Fiquei com medo.
Colocou o chapéu na cabeça ovalada, abriu o guarda chuva que também era chapéu e começou vagarosamente a caminhar em direção ao destino, fosse lá qual fosse.
Tudo era silêncio enquanto sua silhueta negra desaparecia aos poucos na distância ensolarada. Vez em quando parava, olhava para trás, ficava assim um tempinho nos fitando a todos, e então continuava. E todos nós lá parados, em silêncio, como posando para uma fotografia. Posando para uma maldição.
Assim que a figura desapareceu na esquina, minha avó, meus pais e tios explodiram numa gargalhada astronômica que até hoje deve estar ecoando pelo espaço sideral.
Assim que a figura desapareceu na esquina, minha avó, meus pais e tios explodiram numa gargalhada astronômica que até hoje deve estar ecoando pelo espaço sideral.
De noite, já com as cadeiras na calçada, perguntamos:
- Por que eles riram vovó?
Acontece - disse minha avó - que quando tinham a idade de vocês, seus pais sempre esconderam o chapéu do Sebastião no mesmo lugar e da mesma forma.
Acontece - disse minha avó - que quando tinham a idade de vocês, seus pais sempre esconderam o chapéu do Sebastião no mesmo lugar e da mesma forma.
Entendi. Fomos então perdoados por se tratar de uma compulsão hereditária.
Um comentário:
"Caminhava elegantemente desengonçado, como se fosse fruto do amor carnal entre Chaplin chamuscado com um chuchu fincado em dois palitos de picolé."
kkkkkkkk, Sérvio a imagem se desenhou perfeitamente em minha mente, sua narrativa é espetacular, você devia cobrar por isso, devemos pagar pra te ler.
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